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‘Cada ida à prisão te marca de uma forma’

set 05, 2018 ittc

Por Letícia Vieira

Mary Nolan, presidenta do ITTC, relembra sua trajetória na luta por direitos humanos

“Ah, eu não lembro como foi a primeira visita. Eu tive muitos momentos que marcaram”, conta a presidenta do ITTC, Michael Mary Nolan, sobre sua primeira visita no sistema penitenciário. O massacre do Carandiru e a denúncia de tortura na antiga Penitenciária Feminina do Tatuapé são alguns dos momentos lembrados pela presidenta. Mesmo assim, a empatia necessária à luta pelos direitos das pessoas presas surge em suas palavras. “Eu acho que cada ida para a prisão te marca de uma forma ou de outra. Não dá pra ir e não ser marcado”, conclui.

Próxima de completar 50 anos no Brasil, Michael relembra o início da sua trajetória na luta pelos direitos humanos, que se deu antes mesmo da sua chegada em nosso país, em 14 de setembro de 1968 – a data marca sua vinda ao Brasil como missionária pela Congregação das Irmãs de Santa Cruz.

“Eu acho que cada ida para a prisão te marca de uma forma ou de outra. Não dá pra ir e não ser marcado.”

Ainda nos Estados Unidos, seu país natal, Michael já atuava com projetos voltados para questões raciais. Lá, se formou em áreas como ciências sociais com ênfase em economia, e administração hospitalar e de empresas, recebendo mais tarde um título de Doutora Honoris Causa de Direitos Humanos. No estado de Texas, criou, junto a um professor do local onde atuava como economista, um curso de alfabetização voltado para pessoas negras.

Ao lembrar-se dos precedentes da luta por direitos, Michael traz a experiência da mãe, que trabalhou como secretária executiva de um senador americano. Em uma época na qual apenas o trabalho laboral era opção para as pessoas negras, a mãe de Michael se destacou dos colegas de profissão pela contratação de uma pessoa negra para trabalhar no escritório. “Quando criança, eu me lembro de ter atendido ao telefone e serem ameaças de morte para a minha mãe. Acho que foi ali que começou o trabalho de direitos humanos diretamente”, explica Michael.

A luta em período de repressão

Em 1968, Dom Paulo Evaristo Arns fundou a Comissão Arquidiocesana de Direitos Humanos, seguida pela fundação da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese e do Comitê de Defesa dos Direitos Humanos nos Países do Cone Sul (Clamor), em 1972 e 1977 respectivamente. Os três grupos tomavam como pauta o combate às violações de direitos humanos cometidas durante o regime militar.

A Comissão Arquidiocesana de Direitos Humanos e o Clamor, em especial, fizeram parte da atuação de Michael Mary Nolan durante a ditadura. Responsáveis por temas como refúgio e perseguição política, os grupos ficaram encarregados pela recepção das pessoas migrantes que chegavam ao país, vindas de outros países da América Latina.

“Naquela época, a pessoa que vinha refugiada não podia ficar no Brasil. Então, um grande número de argentinos, uruguaios e chilenos que vieram, ficaram clandestinos aqui. Tanto que, por exemplo, a lista de desaparecidos argentinos que a Comissão da Verdade argentina fez só tinha nove nomes a mais do que aquela que fizemos aqui em São Paulo. Foi uma época que tinha vários casos de pessoas refugiadas dentro das nossas casas”, relembra Michael sobre a atuação no Clamor.

Nesse período, as pautas de encarceramento começam a surgir na trajetória de Michael, junto da motivação para cursar Direito. “Na época, eu era membra da Comissão Arquidiocesana de Direitos Humanos e os advogados cansaram de me ouvir pedindo para tirar os moleques da favela, da cadeia. Aí eles disseram ‘por que você não estuda Direito?’ e Dom Evaristo me deu bolsa de estudo”.

Em 1978 foi lançada a primeira edição do Manual dos direitos dos presos, publicado posteriormente também pelo ITTC. A publicação foi elaborada na Comissão Arquidiocesana de Direitos Humanos e Michael afirma que foi um dos seus primeiros contatos com o sistema penitenciário no Brasil.

Simultaneamente, a presidenta do Instituto desenvolveu ações e projetos voltados para a população indígena e quilombola, área em que atua até hoje no Conselho Indígena Missionário (Cimi). Nos anos 90, a pauta de mulheres em conflito com a lei, sobretudo migrantes, a motivou a fundar o ITTC, junto da advogada Sônia Drigo e do então deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh.

“Eu sempre lutei em lugares nos quais a maioria é homem. E nesses espaços tem muita mulher que reproduz o machismo, isso é o grande perigo da mulher que está nesse meio.”

A denúncia de tortura no Tatuapé, inicialmente citada por Michael como fato marcante da sua trajetória, também alavancou seu trabalho com mulheres migrantes. “Não tinha direito nenhum, ninguém tinha olhado para as mulheres. Elas estavam espalhadas em várias unidades, a maior parte em Tatuapé, que era um presídio usado para a Febem e fechado porque era insalubre”, comenta ao lembrar das condições e dificuldades enfrentadas por essas mulheres.

Ao se recordar da realidade das mulheres migrantes em conflito com a lei, Michael também fala das suas dificuldades como mulher migrante e sua luta por direitos. Representar uma população vulnerabilizada e com direitos violados em um meio composto majoritariamente por homens foi um dos desafios apresentados. “Eu acho que eu sempre lutei em lugares nos quais a maioria é homem. E nesses espaços tem muita mulher que reproduz o machismo, isso é o grande perigo da mulher que está nesse meio”, explica Michael.