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“É preciso romper a espiral da violência”: cobertura do primeiro ConverSarau da campanha “Encarceramento em massa é justiça?”

jul 27, 2018 ittc

Atividade da campanha organizada pela Rede Justiça Criminal em parceria com o Sesc 24 de Maio debate encarceramento em massa e alternativas penais.

Por Juliana Avila Gritti

“A cada avião que decolava e era possível escutar, rapidamente em meus pensamentos fugia daquele lugar e buscava força em tudo, para não permitir ser engolido pela revolta e todo aquele ódio de viver sem liberdade. Era mais fácil se entregar àquela cultura e me drogar por não suportar a dor psíquica de sentir na pele a exclusão em seu extremo. Dentro daquele lugar era possível sentir o clima e perceber como ele ficava mais pesado em questão de minutos. Uma discussão, uma dívida, uma cobrança, uma palavra mal colocada, uma morte, um lençol enrolado, uma lâmina no pulso. Isso era a rotina, o constante esforço para que não fosse eu enrolando o lençol ou tirando a lâmina do barbeador para tentar contra minha vida, por conta de ser tratado pior que bicho – eu pensava em cada avião que era possível escutar.”

O texto “Morro da Vida”, aqui reproduzido parcialmente, abriu o primeiro ConverSarau da campanha “Encarceramento em massa é justiça?”, no dia 18 de julho. A leitura foi na voz do próprio autor, Emerson Ferreira, psicólogo, mediador de conflitos e egresso do sistema carcerário. Nesse desabafo literário, o fundador do projeto Reflexões da Liberdade buscou demonstrar o turbilhão de sensações que vivenciou durante seu tempo na prisão. Na presença de uma plateia heterogênea no pátio do Sesc 24 de Maio, Emerson, mediador da conversa, apontou para a falta de diálogo e a negligência generalizada na educação como bases dos nossos problemas sociais, e questionou a lógica do nosso sistema de justiça.

A segunda integrante da mesa foi Marina Dias, diretora executiva do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD). Marina pontuou, em primeiro lugar, que a questão do encarceramento impacta todos os membros da sociedade, direta ou indiretamente, reforçando a necessidade de trazer a temática para o debate público, e seguiu com uma apresentação e interpretação de dados do sistema prisional e de justiça, demonstrando a seletividade contra jovens negros, pobres e negligenciados pelas políticas públicas, que apenas conhecem “o braço armado do Estado”. A advogada afirmou que é preciso “romper a espiral da violência”, citando como exemplos a implementação efetiva das audiências de custódia, a soltura das pessoas que já cumpriram sua sentença e a discussão sobre mulheres no cárcere.

O microfone passou em seguida para Railda Silva, uma das fundadoras da AMPARAR – Associação de familiares e grupos de presos.  Railda focou sua fala na solidão e sofrimento das famílias de pessoas privadas de liberdade, especialmente em relação aos menores em conflito com a lei. “A primeira política pública que esses jovens acessam é o judiciário”, defendeu Railda, se referindo à juventude negra e pobre no Brasil. “Mas não fiquem com dó de mim. Não sou ‘mãezinha’ e não sou ‘mãezona’. Sou leoa”.

A quarta participante foi Raquel da Cruz Lima, advogada e pesquisadora no relatório MulhereSemPrisao do ITTC. A pesquisadora leu trechos de relatos feitos por duas mulheres presas, os quais expõem a tese de que o cárcere gera ainda mais violência ao invés de contê-la: “o coração endurece num lugar desses”, “a prisão deixa as pessoas doentes”. Raquel reforçou a urgência de se pensar alternativas penais fora da perspectiva punitiva, a partir de novos recursos. “Precisamos pensar como as crianças: ‘por quê?’ é a pergunta que não pode calar”.

A prisão deixa as pessoas doentes – Raquel da Cruz Lima

Antes da abertura para colocações do público, a última fala foi de Beatriz Besen, mestranda em Psicologia Social, com quem já conversamos em um ITTC Entrevista. A psicóloga exibiu o vídeo “Punição e resolução de conflitos: o que o município tem a ver com isso?” da Agenda Municipal para Justiça Criminal do ITTC, explicando suas propostas e discussões acerca do tema. Beatriz trouxe sua experiência como mediadora de conflitos em um equipamento público e os desafios encontrados nesse percurso, ressaltando a importância de buscar alternativas fora da esfera penal para resolver conflitos.

Para saber mais sobre a campanha, acesse a publicação: Sesc recebe campanha ‘Encarceramento em massa é justiça?’ de julho a setembro