Cena da série 'Olhos que condenam' dirigida por Ava Duverney. Foto: Reprodução | Netflix
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ITTC Recomenda: Olhos que condenam

out 29, 2019 ittc

Por Matheus Sylvestre 

A cineasta Ava Duverney está fazendo história e deixando um legado de representatividade, apoio e luta para a juventude, principalmente para mulheres negras. Hoje ela está em uma posição privilegiada, mas ainda assim escassa, por ser uma das poucas diretoras negras de grande referência e notoriedade em Hollywood. Em 2014, ela foi a primeira mulher negra indicada ao Globo de Ouro na categoria melhor direção pelo filme “Selma: Uma Luta Pela Igualdade”. Seu engajamento para ser uma voz ativa e presente nos debates raciais a fez fundar, em 2010, a ARRAY, uma distribuidora de filmes independentes para diretores/as negros/as. A empresa vem expandindo a educação cinematográfica entre jovens negros e negras e incentivando-os/as a ocupar lugares com as suas respectivas produções. 

Olhos que Condenam estreou neste 31 de maio na Netflix e é uma das produções da empresa mais assistida do ano.  A série marca um momento importante na carreira de Duverney e expõe o posicionamento de Donald Trump, atual presidente dos EUA, sobre o caso dos quatro jovens negros e latinos acusados injustamente por estupro coletivo contra uma mulher branca e rica. Trump reforçava o racismo em suas falas, pediu a pena de morte dos meninos e suas declarações foram amplamente divulgadas nos jornais de Nova York. Todos cumpriram a sentença de 6 a 13 anos de prisão, e só vieram a ser inocentados em 2014, após o verdadeiro culpado assumir o crime. Vivem hoje em dia com uma indenização avaliada em torno de 41 milhões de dólares, pelo tempo que ficaram presos, e com os traumas emocionais dos abusos e violência que sofreram neste processo. 

A série pode despertar um gatilho de revolta e impotência no telespectador. Esses sentimentos de sensibilidade e empatia do público refletem a abordagem da cineasta, que conseguiu construir, em quatro episódios, uma mensagem real e crua sobre a realidade do racismo institucional. Todos os fatos narrados são reais e fazem ponte com o que é possível observar hoje em dia. Na série vemos a polícia abusar psicologicamente e fisicamente dos jovens para assumirem o crime que não cometeram. Sendo alguns deles menores de idade, interrogados em salas sem seus familiares e sem direito de defesa judicial imediata. 

Duverney transita pelos episódios abordando toda a situação vulnerável dos meninos e suas famílias antes, durante e após o encarceramento. Dentre as gravidades expostas pela cineasta, uma das mais chocantes é como a polícia e a promotoria pública construíram uma narrativa falsa das acusações, priorizando a versão testemunhada pelos policiais. A tragédia aconteceu trinta anos atrás, mas ainda assim conversa diretamente com casos como o do jovem brasileiro Rafael Braga. Em 2013, ele foi acusado de portar material explosivo consigo nas manifestações das Jornadas de Junho, quando na verdade carregava dois produtos de limpeza em sua bolsa. Rafael ficou 5 anos preso e após ter tuberculose na prisão, recebeu direito a cumprir a pena em regime domiciliar. 

 


Foto: Reprodução | Netflix