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Leite e Ferro: A Maternidade no Cárcere

jun 09, 2020 ittc

“Leite e Ferro” é um longa-metragem da cineasta paulistana Claudia Priscilla. Lançado há 9 anos, o filme não perde sua atualidade, pois trata de um tema central a muitas mulheres em conflito com a lei: a maternidade dentro do sistema prisional. Sem que se valha de um olhar predisposto, ou autocensurado, a câmera de Priscilla deixa que a narrativa seja contada por aquelas mulheres. Nela, figuram as questões e dramas sociais, embutidos nas histórias de vida das reais personagens, mas garante-se também o espaço para a celebração do amor materno e da vida.

“Leite e Ferro” foi filmado em sua totalidade no Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa (CAHMP), em São Paulo, fechado em 2009. Na instituição, mães e bebês permaneciam juntos durante o período de aleitamento. Ao fim deste período de quatro meses, a ruptura. As mães voltavam para o regime fechado, enquanto os filhos eram  entregues aos familiares, ou mesmo direcionados à instituições de assistência. Para a audiência o processo de separação é apenas dito e não ocorre na frente das câmeras. Mesmo assim, o peso emocional de apenas imaginar uma cena dessas é tangível.  

Um tema análogo à relação mãe-filho/a no filme é a própria convivência entre as mães nas dependências do CAHMP. Convidando a participar da roda de bate-papo ali com elas, o trabalho de câmera, em enquadramentos fechados, propõe proximidade humanizadora e revela uma dinâmica fluida entre as mulheres. Se em alguns momentos elas pareciam se dividir em grupos e compararas histórias pessoais umas das outras, quando se tratava das necessidades dos bebês, as mães se juntavam para resolver os problemas. 

Fica nítido que o compartilhamento da experiência materna entre aquelas mulheres as confortava de alguma maneira, remediando-as contra a dor da iminente separação. A religião, nesse sentido, ganha grande importância para elas: em uma cena bastante impactante, as mães oram juntas pela proteção de suas crianças. Por essas razões, a união e os laços que se estabeleciam fraternalmente entre as mães no CAHMP o tornava um lugar mais favorável ao exercício das relações mãe-filho/a, ainda que fosse uma prisão. Subsequente a seu fechamento, não se inaugurou nenhuma instituição de mesma finalidade e, hoje, as mães encarceradas dão à luz em hospitais penitenciários. 

Enquanto o filme roda, quem conduz o novelo da história é Luana (apelidada como Daluana). Isso se faz principalmente pela grande desenvoltura e descontração que a personagem assume ao relatar pontos de sua história pessoal, seu envolvimento prematuro com o tráfico de drogas e, consequentemente, as lembranças de sua primeira maternidade no cárcere. É através da dualidade que se estabelece entre o tom descontraído do depoimento de Luana  e a visceralidade de seu conteúdo que o filme introduz a profundidade de vida que existe naquelas personagens. Ao trazer um sentimento de adesão àquela realidade, ou pelo menos, de tentativa genuína de compreendê-la, a diretora consegue assertivamente comunicar um recorte novo e sincero.

Entre o riso e o choro, mas usando mais do primeiro, as mães de Leite e Ferro encontram coragem para falar de seus passados, revelando o peso das carências e violências advindas da marginalização social, do caminho do tráfico de drogas e também do vício em suas vidas. Porém, ao mesmo tempo que não podem apagar suas vidas pregressas, seus futuros se sustentam em bases frágeis. Em entrevista à Rede Brasil Atual na época do lançamento do filme, Cláudia Priscilla menciona que Daluana passou pouco tempo em liberdade e teve de retornar à prisão, por razão de um roubo.

De 2011 para cá, uma mudança e uma continuidade marcam os paralelos com o contexto retratado pelo filme. A mudança se refere à criação do Marco Legal da Primeira Infância que torna possível o cumprimento de pena em prisão domiciliar para gestantes e mães de crianças de até 12 anos. Já a continuidade faz alusão ao fato de que o crime de tráfico de drogas, de tipificação não violenta, ainda é o principal motivo pelo qual mulheres são colocadas nas prisões. Entre a mudança e a continuidade, contudo, há um desbalanço evidente: as medidas desencarceradoras ainda não conseguem competir, em escala, contra o peso da tendência de encarceramento em massa tomada pelo Brasil através dos últimos 20 anos – fenômeno que atinge em cheio milhares de mulheres. 

Para o espanto da atualidade, fica a pertinência de Leite e Ferro, com um trecho em que uma das mulheres se questiona: “Será que eles [os bebês] sabem que estão olhando por uma grade?” Muitas mães inseridas hoje no sistema prisional devem ter a mesma dúvida.

                                                                                                                                                                        Por Jorge Fofano Junior

Foto:  ©Divulgação