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O quarto de despejo dos dias atuais

11/07/2017

Obra de Carolina Maria de Jesus fala sobre a vida nas favelas nos anos 1950 e mostra que a realidade atual não está muito distante dos relatos

Nascida em 1914, no estado de Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus, migrou para São Paulo aos 23 anos, após a morte da mãe. Mas apenas em 1937 foi morar na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, uma dasprimeiras favelas na cidade. Mulher, mãe solo e negra, um perfil bastante recorrente nas zonas periféricas, são características que fazem o pano de fundo dos relatos encontrados em sua obra Quarto de Despejo — Diário de uma favelada.

Carolina Maria de Jesus. | Foto: Reprodução
Carolina Maria de Jesus. | Foto: Reprodução

Nas páginas dessa obra, escrita há mais de 70 anos e publicada em ao menos 13 idiomas, é descrita uma realidade ainda frequente nas periferias. Até hoje persiste a ausência de políticas públicas que possibilitem o acesso a serviços básicos como saúde, educação e transporte.

Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos , almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo. (sic)

Quarto de Despejo: diário de uma favelada, pág. 33

Na narrativa de Carolina, a fome permeia cada relato e, em dado momento, torna-se o principal tema da obra, que mostra sua constante luta pela sobrevivência dela e dos filhos. Catar papelão foi uma solução que a autora encontrou para viver com o mínimo de dignidade.

Mesmo passadas tantas décadas da publicação do livro, a favela ainda representa uma senzala moderna, como constata a cientista social Dina Alves. Para ela, as políticas criadas para esses espaços apenas viabilizam medidas de segurança pública através da ação policial, não muito raro, também pano de fundo de mecanismos encarceradores e genocidas da população negra e jovem.

A atenção à realidade pautada no livro se faz necessária para propor diálogos que permitam a construção de espaços onde as pessoas que vivem nas periferias e em situação de vulnerabilidade possam expor suas demandas e propor soluções, para assim minar os mecanismos sob os quais operam a seletividade penal, a repressão policial e a prisão.

A obra Quarto de despejo: diário de uma favelada traz um relato singular e verossímil das vidas que habitam a favela, representando mazelas e inseguranças enfrentadas diariamente por essa parte da população, que, apesar de ser sobre-representada nas tomadas de decisões e nos espaços de poder, é maioria no Brasil.

Entre os dias 11 e 14 de julho o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc traz uma semana especial sobre Carolina Maria de Jesus. A programação tem Adriana Carranca, Conceição Evaristo, Audálio Dantas e Ferréz. As palestras são gratuitas.

Site: http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/ciclo-carolina-maria-de-jesus