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[Projeto Estrangeiras] – Perfil

ago 23, 2013 admin

Perfil – Presas Estrangeiras Às sextas feiras, publicamos histórias que nos foram escritas/relatadas por mulheres que vivem em situação de Cárcere no país. Maria é uma Nigeriana, viúva e com dez filhos – sendo cinco meninas e cinco meninos. Todos eles ainda vivem na Nigéria, em Lagos. Ela é muçulmana, estudou ensino primário e trabalhava em casa, cozinhando comida para vender. Maria nos contou sua história:

*Os nomes dos perfis serão trocados, ou omitidos, por motivos de segurança.

pastoraldamulherbh.blogspot.com.br“Eu vendia comida em uma barraca, em Lagos e tinha poucos recursos para viver. Todos os meus filhos trabalham, mas, mesmo assim, tínhamos condições de vida muito difíceis. Certo dia, meu neto voltou da escola e disse que havia sido convidado para ir à uma excursão para jogar futebol em Enugu. Sabia que seria impossível, porque não tínhamos dinheiro. Nesse dia, uma quinta feira, um homem, que afirmava ser Pastor, missionário, e que sempre comia a minha comida disse que me ajudaria. Eu chamava esse homem de pastor. Diziam que o grupo do pastor ajuda pessoas com doenças mentais, que não são ajudadas pelo governo. Na sexta feira, o Pastor veio novamente, pagou pela comida e me deu dinheiro, para que meu neto pagasse a viagem para Enugu. Fiquei muito agradecida.

Na semana seguinte, o Pastor voltou e me disse que havia outro Pastor no Brasil que poderia me ajudar. Se eu fosse ao Brasil e falasse com esse Pastor, conseguiria uma bolsa para que meus filhos também viessem ao Brasil, onde poderiam trabalhar e lhe enviar dinheiro. Eu não tinha dinheiro para ir ao Brasil, mas o Pastor pagou minha passagem e disse que pagaria a dos meus filhos. Falei com meus filhos e netos e comecei a planejar a viagem, porém, disse ao pastor que não poderia ficar fora da Nigéria por mais de duas semanas.

Vim ao Brasil com o Pastor e outros homens. Ao chegar, passei a noite viajando de ônibus. Fui levada a um hotel. No dia seguinte, viajei mais e fui para outro local. Por vários dias tive que mudar de hotel. Fiquei em, pelo menos, três hotéis diferentes. Comecei a achar muito estranho e perguntei pelo Pastor branco que me ajudaria.

Depois de dez dias, disse que queria voltar e comecei a causar problemas, para que me levassem de volta à Nigéria. O Pastor disse que minha mala não era boa, mas que me daria uma nova. Já ouvi histórias de pessoas que levam malas de outras pessoas e acabam presas, por isso, não aceitei. No dia da viagem, dia 24 de outubro de 2011, o Pastor me levou dez velas grandes, algumas pretas e outras vermelhas. O Pastor me disse que as velas seriam usadas nas rezas para que Deus ajudasse as pessoas com doença mental. Fiquei tocada e resolvi ajudar, já que alguns dos filhos da minha irmã sofrem com doenças mentais e eu sei como é difícil. Aceitei levar as velas e as coloquei na mala. Fui para o aeroporto, mas não sabia onde estava porque não conhecia a cidade.

No aeroporto, estava na fila para fazer o check in e vi quando alguns policias se aproximaram de dois homens que estavam na minha frente e pediram que eles os acompanhassem. Esses homens eram negros, mas não sei se eram Nigerianos. Comecei a fazer o check in, quando dois homens, policiais brasileiros, apareceram e me pediram que eu também os acompanhasse com a minha mala. Esses homens pediram que eu abrisse as minhas malas, um deles pegou uma das velas e a levou para outro local. Algum tempo depois, o homem voltou e afirmou que tinha droga, dentro naquela vela. Ele não abriu a vela na minha frente. Eu neguei e disse que era apenas uma vela. O homem levou a vela para outro local e as outras velas não foram abertas.

No dia seguinte fui presa e só DEZ meses depois fui levada para uma sala do presídio onde fiz minha audiência através de uma televisão. Contei tudo o que ocorreu e, ao final, o juiz disse que eu era inocente. Hoje eu vivo com medo de voltar ao meu país ou de ser encontrada pelas pessoas que me trouxeram para o Brasil”.