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Encarceramento: relato de uma estadunidense no Brasil

nov 20, 2018 ittc

Durante o primeiro semestre de 2018, o Projeto Migrantes Egressas do ITTC contou com o trabalho voluntário da missionária Becca Mudder, da organização Maryknoll. Apesar da curta permanência de Becca na colaboração com o Projeto, este texto de sua autoria tem como objetivo marcar a sua presença como um período de aprendizado e trocas de experiências.

Assim, esta breve introdução se propõe a agradecer por sua assiduidade, energia e colaboração com o Instituto, assim como aproveita para também homenagear e relembrar o trabalho de Sirikit Noronha, outra missionária da mesma organização que, por quase cinco anos até junho de 2018, se dedicou à escuta, atenção e cuidado imensuráveis no atendimento de mulheres migrantes em situação de prisão em São Paulo.

“Every theological statement must be a political statement as well.”
Dorothee Sölle

“Toda declaração teológica necessita também ser uma declaração política.”
Dorothee Sölle

Depois da Universidade, eu trabalhei para uma empresa sustentável no lado oeste da cidade de Chicago, chamada WomanCraft. A missão da organização era trabalhar com mulheres que enfrentavam barreiras à empregabilidade. Uma mulher que buscava o atendimento da WomanCraft poderia estar experienciando, por exemplo, situação de rua, problemas relacionados ao uso de drogas, ou possuir antecedentes penais. As atendidas poderiam inclusive estar vivenciando essas três barreiras ao mesmo tempo, ou em uma variedade de diferentes desafios ligados às condições sociais.

A organização estava localizada em um bairro chamado Chicago’s North Lawndale, onde a taxa de reincidência penal chegou a atingir 51,3%, segundo os dados de 2009 do Departamento Correcional do Estado de Illinois. Uma das principais atribuições da WomanCraft era facilitar uma roda de conversa semanal focada em assistir as mulheres atendidas na busca e obtenção de um emprego estável. Conforme eu as auxiliava nessas buscas, no aperfeiçoamento de seus currículos e no preparo para as entrevistas de emprego, ficava alarmada e espantada de como era difícil a superação das barreiras mencionadas, especialmente para mulheres anteriormente encarceradas e com antecedentes penais.

Reconheço meu trabalho na WomanCraft e minha participação nesses círculos como os primeiros momentos em que entendi o quanto os sistemas da sociedade trabalham juntos para continuar penalizando indivíduos encarcerados, especialmente mulheres, e os inúmeros desafios que eles inevitavelmente enfrentam depois de saírem da prisão.

Eu também olho para este momento da minha vida como incrivelmente formativo, moldando minhas decisões pessoais e profissionais até aqui. Acabei me envolvendo com a pastoral da prisão da Arquidiocese de Chicago, Kolbe House, por meio de visitas pastorais semanais às pessoas presas na infame Cadeia do Condado de Cook, em Chicago, por pouco mais de dois anos. Esta experiência acabou por motivar a minha decisão de me candidatar a trabalhar com as missionárias leigas da Maryknoll em países estrangeiros, pois procurava uma forma mais expansiva e direta de atuar com populações vulneráveis.

A Maryknoll é uma organização católica que envia pessoas a outros países para oferecer cuidados pastorais e acompanhar populações vulneráveis ​​no exterior. Fui selecionada para trabalhar em São Paulo e vim para o Brasil em janeiro de 2017. Durante esse tempo, trabalhei principalmente com as equipes da Pastoral Carcerária, oferecendo visitas pastorais a mulheres em Santana, Franco da Rocha e no hospital carcerário do estado em Carandiru. Em maio de 2018, comecei a trabalhar no ITTC com o Projeto Egressas.

Durante o último ano, fiquei impressionada com as muitas semelhanças e diferenças entre meu trabalho nos Estados Unidos e o no qual estou atualmente engajada, com mulheres dentro e fora das prisões de São Paulo.

Em relação às semelhanças, as questões e os desafios que as pessoas encarceradas enfrentam são basicamente os mesmos. Ambos os países tem relações passadas e atuais com o racismo e a escravidão, e os sistemas e estruturas existentes no Brasil tendem a encarcerar desproporcionalmente pessoas negras de níveis socioeconômicos mais baixos, similar aos Estados Unidos. As condições contínuas de vida das pessoas presas, a falta de acesso a uma representação legal adequada ou suficiente, e o efeito devastador do encarceramento nos sistemas familiares são surpreendentemente semelhantes, tanto que, quando pessoas em situação de prisão descobrem minha experiência, muitas vezes elas me perguntam sobre o encarceramento nos Estados Unidos, e geralmente respondo que as condições, infelizmente, são essencialmente as mesmas, em minha opinião.

O que eu, pessoalmente, não percebi ser correlato é a quantidade de colaboração que tenho testemunhado entre organizações religiosas e organizações sem fins lucrativos ou governamentais relacionadas ao encarceramento, raça e justiça restaurativa. Eu descobri que a quantidade de educação pública acontecendo na cidade onde o ITTC e Pastoral Carcerária estão é impressionante e surpreendente. Pela minha experiência, parece haver mais pessoas envolvidas, interessadas e informadas sobre essas questões em São Paulo, enquanto nos Estados Unidos, embora houvesse um incrível trabalho de advocacy e de educação pública acontecendo em Chicago, os grupos trabalhavam de forma muito independente uns dos outros: a igreja e o que se poderia chamar de “Estado” estavam em espaços separados.

Enquanto me preparo para deixar o Brasil para uma tarefa diferente com Maryknoll, concluo que esse espírito de colaboração é algo que certamente deixou uma marca em mim. A educação pública é fundamental e, talvez, a coisa mais importante que podemos fazer com nosso tempo se nós esperamos que haja alguma mudança real ou duradoura em relação a essas questões. Eu serei eternamente grata por este tempo no Brasil, especialmente no que diz respeito às pessoas que conheci e ao que aprendi no ITTC e na Pastoral Carcerária. Tenho certeza de que permanecerei inspirada pela maneira como tantos jovens brasileiros estão lutando por mudanças e enfrentando sistemas que oprimem de uma maneira com a qual que meu país definitivamente pode aprender.