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Sul-africanas presas detalham esquema de tráfico de drogas em Guarulhos

nov 19, 2013 ittc

Por  Patrícia Campos Mello

mulher trafico

Mpho pensou em desistir quando estava no ônibus, em direção ao aeroporto de Guarulhos. O traficante nigeriano tinha recheado o sutiã dela com pacotes de cocaína. A calcinha, daquelas que têm um enchimento atrás, também estava forrada de droga. Em cima de tudo isso, a sul-africana Mpho teve de vestir uma meia calça, para segurar melhor. “Os meus peitos estavam enormes, alguém ia reparar, eu tinha certeza…”.

Estava nervosa e começou a suar. “E se eu jogasse tudo fora, na lata de lixo do banheiro do aeroporto?”, pensou. Mas o traficante iria atrás da família dela, ela tinha certeza. Chegou no balcão do check-in da South African Airways. Ia dar tudo certo, muitas meninas já tinham feito isso, pensou. Era dia 29 de abril deste ano. A desventura da sul-africana Mpho (nome trocado) tinha começado cinco meses antes, em Johannesburgo.

Aos 21 anos, Mpho era mãe solteira de uma menina de 10 meses, Lisa. A situação estava difícil. Teve que parar de estudar. Sua mãe ficou muito brava com a gravidez. Mpho trabalhava como recepcionista em um hospital, ganhava 3.500 rands por mês (US$ 340), mas só o aluguel era 2.000 rands (US$ 200). Um amigo de seu ex-namorado disse que podia ajudá-la. Mostrou uma pilha de passaportes. “Essas meninas viajam para mim. Elas vão até o Brasil, pegam umas coisas e trazem para cá. E ganham 60. 000 rands (US$ 5.800)”. “Eu sabia que eram drogas, o cara era nigeriano, é isso que eles fazem”, disse. “Mas ele me tranquilizou, disse que era fácil, que eu não ia ter que carregar as drogas em mim ou engolir, só poria na mala.”

Quatro meses depois, o amigo ligou: “Está tudo pronto, venha para o hotel”.Mpho deixou a filha com a mãe, disse que ia procurar emprego. No hotel, Mpho encontrou outra menina que tinha acabado de chegar do Brasil. Ela era branca. Estava grávida e contou que tinha sido fácil. Seu amigo a levou para um banho de loja em um shopping de Johannesburgo. Disse que ela precisava ficar com um bom aspecto para viajar e aí a deixou no aeroporto.

Tudo ia bem, até ela chegar na imigração. “Eu sei o que você está indo fazer, você vai se dar mal;todas essas meninas da sua idade, viajando sozinhas, todas com mesma reserva de hotel falsa…”. Mpho ficou nervosa e perdeu o voo. Uma semana depois, conseguiu embarcar. Recebeu um chip da TIM e um número para ligar assim que chegasse a São Paulo. O sujeito que atendeu, também nigeriano, deu detalhes sobre como chegar a um hotel, na avenida São João.

Chegando ao hotel, ele a levou para um apartamento bem longe. Mpho ficou lá por duas semanas. Havia outras “mulas”, entre elas um brasileiro que ia para Portugal.Uma noite, ela foi na cozinha beber água. O traficante estava preparando as cápsulas para o brasileiro engolir. Ele olhou para Mpho e brincou: “Seu estômago parece bom para engolir”. No dia seguinte, ele apareceu com um sutiã e uma calcinha e disse – “você vai usar isso”. Mpho nem protestou. Estava com medo.

No dia 29 de abril, ela pegou o ônibus para o aeroporto. Quando chegou sua vez na fila do check-in, viu várias pessoas com rádios. Assim que tirou o passaporte, vieram policiais e a levaram. “Já vimos isso antes, você não é a primeira pessoa a carregar drogas desse jeito.” Mpho começou a chorar. Ela ficou presa por cinco meses. Agora cumpre pena prestando serviços comunitários, por três anos. Não pode deixar o país.

“Sinto muita falta da minha filha, da minha vida antiga…”, diz, chorando. A polícia encontrou 1,5 kg de pó com Mpho. “Fui usada como isca. Alguém me dedou para a polícia, enquanto as mulas carregando muita droga passaram”, diz ela.

SETE ANOS E NOVE MESES

Tessa Beetge, ao contrário de Mpho, diz nunca ter sabido que carregava drogas. Ela foi presa em 2008 no aeroporto de Guarulhos, com quase 10 kg de cocaína na mala. “Fui enganada, achei que ia fazer um trabalho de escritório, puseram a droga na minha mala”, diz. Foi aliciada por sua vizinha, Cheryl Cwele –ex-mulher do ministro de Segurança da África do Sul, presa naquele país.

Tessa foi condenada a sete anos e nove meses de prisão. Não conseguiu nenhum benefício. Está na Penitenciária Feminina da Capital há cinco anos e cinco meses. “Não podemos falar ao telefone, nem mandar e-mails, e nossa família não tem recursos para vir visitar.” Aos 36 anos, tem duas filhas, de 15 e 16 anos. Não fala com elas desde 2009. Sua mãe, Marie Swanepoel, ficou famosa no África do Sul: transformou-se no ícone de todas as mães que lutam para seus filhos cumprirem pena em seu país.

Marie morreu há um mês, sem ver a Tessa e sem conseguir levá-la de volta.

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Fonte: Folha de São Paulo