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Exibição do documentário “Ilegal” provoca reflexões a respeito do uso medicinal da maconha e sua discriminalização

mar 06, 2015 ittc

Equipe de Comunicação ITTC

No dia 22 de janeiro, o ITTC realizou uma sessão de cinema na Defensoria Pública da União para aproximadamente 30 pessoas, entre elas: equipe, estudantes, defensores públicos e representantes de instituições parceiras. Na oportunidade foi exibido o documentário Ilegal, dirigido por Tarso Araújo e Raphael Erichsen, que aborda a polêmica em relação ao uso da substância canabidiol (CBD) – medicamento derivado da Cannabis sativa, sem propriedades alucinógenas, recentemente permitido no Brasil – foi uma oportunidade para a equipe do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania discutir a questão das drogas no país contando com a presença de um dos diretores do filme, Tarso Araújo.

Advindo de uma campanha chamada Repense, iniciada em março do ano passado, o documentário é, segundo o próprio diretor, “um chamado aos sentidos para o sofrimento de uma mãe” que vê sua filha de cinco anos tendo até 60 convulsões por semana e nenhum resultado ao ministrar os medicamentos indicados por médicos.

Ao retratar uma mãe de classe média, brasileira, com uma família tradicional, o filme leva o público mais relutante à legalização da maconha, que representa expressivos 91% da população (que se posicionam contra a legalização tanto para o uso medicinal quanto recreativo), a se questionar sobre quem são os usuários e traficantes de drogas e lança uma inquietação sutil, porém progressiva, a quem assiste ao filme: e se fosse comigo? A dúvida, então, se desenvolve: E se a única cura para a doença do meu filho ou filha fosse um medicamento proibido? E se, por isso, eu pudesse ser acusada de tráfico internacional de drogas?

A última pergunta é respondida por Katiele Bortoli, uma das mães mostradas no filme: “Se para salvar a vida da minha filha e dar uma vida melhor para ela eu tiver que traficar, eu traficarei. A palavra é essa, traficar”.

O canabidiol se mostrou eficiente no tratamento de casos graves de epilepsia, CDKL 5 e a Doença de Crohn. O medicamento foi reclassificado em janeiro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e agora consta na lista de substâncias sob controle especial. Essa foi uma conquista ocasionada pela pressão popular, principalmente das mães que tiveram suas histórias contadas no documentário, que organizaram manifestações e recorreram à justiça e a parlamentares em prol da legalização do canabidiol.

No entanto, existem outros remédios derivados da maconha que também se mostraram eficientes no tratamento de outras doenças e continuam sendo proibidos no Brasil, como o Bedrocan, um analgésico para tratar Síndrome de Tourette, o Sativex, que atenua as dores causadas pelo câncer, e o Marinol, que combate a perda de apetite nas pessoas com Aids, todos contendo a o tetra-hidrocanabinol (THC), substância responsável pelos efeitos alucinógenos.

Segundo Tarso Araújo, a própria maconha está abaixo de outras drogas lícitas, como os remédios tarja preta utilizados no tratamento da depressão, na lista de danos, que engloba danos à saúde e à sociedade.

O diretor do documentário afirma que a discussão sobre a legalização da maconha implica falar sobre algo muito maior que o direito ao corpo e ao prazer individual, apesar de essa ser uma das maiores bandeiras entre os movimentos pró-legalização.

De acordo com o site da campanha Repense, o primeiro registro de prescrição de uso de maconha foi na China em 2700 a.C. Até os medicamentos modernos serem desenvolvidos, ela era usada com sucesso como remédio para curar inflamações, cólicas, dores nas articulações, entre outras enfermidades.

Já podemos ver que, no Brasil, a política de drogas começa a ter suas alterações pela via do uso médico – o que provoca uma reflexão sobre o ponto destacado por Tarso Araújo no início do texto: a utilização da substância por famílias de classe média-alta, brancas, tradicionais. Ainda muito pouco se discute sobre as famílias pobres que vivem no ambiente do tráfico, sofrendo diretamente as consequências da chamada “guerra às drogas”.

Hoje já temos exemplos de países que experimentaram a descriminalização ou a legalização. No Uruguai, com a produção estatizada, na Espanha, com cooperativas de produção e autocultivo, nos Estados Unidos, com ênfase na utilização medicinal. São diversas experiências cujos impactos em breve poderão ser avaliados. Diminuição do encarceramento e de mortes em conflitos entre traficantes e polícia são apenas alguns dos resultados que antevemos.

Assista ao trailer do documentário: