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ITTC Recomenda: Guia de sobrevivência à prisão

maio 16, 2019 ittc

O universo da justiça criminal, em especial no que diz respeito às prisões, é um assunto que simultaneamente assusta e instiga curiosidade. Guia de sobrevivência à prisão é um documentário construído com elementos hollywoodianos que cumprem o papel de capturar a atenção do público – a começar pelo próprio nome, estilo “lista Buzzfeed”. A premissa é simples: a partir de dois personagens centrais e vários depoimentos paralelos, são oferecidas dicas sobre como encarar cada etapa do contato com a justiça criminal dos Estados Unidos, desde a abordagem policial até o fim do cumprimento de pena.

Dirigido pelo cineasta Matthew Cooke, conhecido pelo premiado documentário Como enriquecer vendendo drogas (2015), o filme conta com a narração da atriz Susan Sarandon e a participação de outros artistas e estudiosos reconhecidos, como o rapper Ice-T, a comediante Patricia Arquette e a advogada e escritora Michelle Alexander. Jornalistas investigativos, agentes penitenciários, policiais e egressos do sistema também compartilham suas experiências de diferentes pontos de vista.

O documentário surpreende ao transcender o caráter um tanto apelativo presente na ambientação, nas músicas e na narração. Sendo os Estados Unidos o país com a maior população carcerária do mundo, atualmente em mais de 2,1 milhões de pessoas, além de possuir forte influência cultural ao redor do globo, é essencial que sua indústria audiovisual promova debates sobre encarceramento em massa, atuação policial e guerra às drogas.

É interessante observar que várias das abordagens sistemáticas criticadas no longa-metragem são medidas que vêm ganhando poderosos adeptos no Brasil nos últimos anos, sobretudo no atual governo. O documentário explora bastante o plea bargain, um dos pontos do “pacote anticrime” do Ministro Sergio Moro, que basicamente é a redução da pena mediante confissão de culpa. A experiência estadunidense demonstra que atores da justiça fazem uso excessivo dessa medida para resolução de casos, forçando a pessoa acusada a confessar, responsabilizando-se, inclusive, por crimes ou condutas que não cometeram.

Outro ponto essencial é a discussão sobre privatização do sistema penitenciário, um modelo de alta adesão no país norte-americano, mas que tem se mostrado ineficaz e, principalmente, um incentivo para o aumento do encarceramento, uma vez que dá lucros bilionários para empresas privadas.

Guia de sobrevivência à prisão falha ao focar suas narrativas em casos de pessoas condenadas injustamente. O apelo da estratégia é evidente, uma vez que é mais fácil suscitar empatia em relação a pessoas inocentes. Entretanto é necessária uma reflexão sobre como proceder quando as acusadas de fato cometeram um crime. Essa discussão é trazida à tona apenas na última meia hora do filme, que cita a comprovada falência do modelo de prisões de forma geral e o sucesso de modos alternativos de resolução de conflitos, como a justiça restaurativa. Como afirma um dos entrevistados, “não há cura para a violência em violência. Isso é dito há milhares de anos”.