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Chimamanda Ngozi Adichie explora pautas de direitos humanos em livro de contos

nov 21, 2017 ittc

Migração, sistema prisional e governos ditatoriais são temas centrais dos contos de Chimamanda, que usa a ficção para retratar a realidade

Autora de obras premiadas como Meio sol amarelo e Americanah, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie adentra toda a perspectiva política e cultural de seu país, abordando temas como o racismo, a migração e a desigualdade social e de gênero.

Recentemente, a coletânea de contos da autora intitulada The thing around your neck (título original) ganhou uma edição em português brasileiro. O título, traduzido como No Seu Pescoço, e publicado pela editora Companhia das Letras traz 11 contos e entre eles está o conto que nomeia a obra.

Um dos destaques da coletânea é o conto “Cela um”, que abre o livro. Chimamanda penetra o universo do sistema prisional e também da violência na Nigéria e cria uma narrativa que imerge a pessoa que está lendo na realidade contada.

A história é contada por uma jovem filha de professores universitários que mora no campus da universidade. A narração já inicia relatando as ondas de violência pela qual o campus passa. Primeiro, jovens de fraternidades iniciam roubos nas casas dos professores, depois desenvolvem uma rivalidade marcada por assassinatos e agressões por todo o campus.

O irmão da jovem que narra a história é preso em um desses episódios e a perspectiva mostrada traz o choque e a indignação que as violações do sistema prisional causam. Todas essas violações ganham também um novo olhar por causa da classe social da família, que pouco contato tinha com essa realidade.

Os contos seguem traçando e descrevendo partes de histórias fictícias, porém complexas e próximas da realidade. A migração também é um dos temas abordados nos contos. Em diversas narrativas, a autora retrata personagens que vão para outro país, no caso, os EUA, em busca de uma vida melhor.

A relação com a cultura do país natal e o cenário socioeconômico são explorados nesses contos: as afetividades, os costumes, o modo de pensar e até mesmo a língua ganham destaque e dimensões nos percursos e subjetividades construídas ali.

A distância do lar e as diferenças culturais são trabalhadas de diferentes formas e sob diferentes panoramas, como o da religião, por exemplo, tema trabalhado com sensibilidade no conto “Uma experiência privada”. Chimamanda narra as preocupações, pensamentos e o contato de duas mulheres, uma cristã e outra muçulmana em meio a uma onda de violência.

A autora faz um percurso no livro, já conhecido por leitores e leitoras de suas obras. Dessa vez, em pequenas pílulas, Chimamanda captura as minuciosidades do cotidiano, da cultura, dos sofrimentos e toda a subjetividade de um povo.

Assim, somos convidados a desvelar os estereótipos construídos da população negra, das desigualdades, dos governos abusivos e corruptos e da cultura da Nigéria. Com o propósito já citado por Chimamanda em um dos seus discursos, nos desvencilharmos do perigo de uma única história.

Por Letícia Vieira