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Nos anos 50, era o Hotel Cambridgde. Hoje, é a moradia de 150 famílias

ago 25, 2017 ittc

Era o Hotel Cambridge, longa-metragem dirigido por Eliane Caffé, é um híbrido de documentário e ficção que fala dos dilemas da luta pela moradia e pelo acesso a direitos das pessoas migrantes

Era o Hotel Cambridge explora a luta pela moradia através de um novo arranjo e de novos protagonistas. Incorporando migrantes da ocupação, o longa-metragem retrata não só a carência de políticas que contemplem pessoas moradoras de zonas periféricas, mas também a ausência do devido acolhimento e reconhecimento dos direitos das pessoas migrantes.

A construção do Hotel Cambridge data da década de 1950. O prédio, localizado na avenida Nove de Julho, abrigava quartos de luxo e era um dos pontos de referência no centro de São Paulo. Com a dispersão da elite paulistana do centro histórico, a construção caminhou para a falência e foi fechada em 2002. Em 2010, o prédio foi desapropriado pela Prefeitura por causa de dívidas de IPTU. A ocupação “Hotel Cambridge”, hoje com cinco anos, foi regularizada pelo ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

O longa-metragem Era o Hotel Cambridge foi dirigido por Eliane Caffé em 2015 e conta a história dessa ocupação mesclando documentário e ficção. A estreia nos cinemas ocorreu apenas neste ano.

O enredo nos conduz a conhecer com mais particularidade os dilemas da pessoa migrante no Brasil, adentrando a subjetividade, as dores, os choques culturais e a luta de cada personagem-pessoa apresentado, além de reiterar as reivindicações dos movimentos de moradia no Brasil.

Segundo Eliana Caffé, “Era o Hotel Cambridge aborda um tema contemporâneo, mas ainda pouco retratado no audiovisual brasileiro: a problemática do refúgio unida às ocupações decorrentes das marginalizações sociais nas grandes cidades brasileiras”.

Já nas cenas iniciais, vemos um ápice: um pedido judicial de reintegração de posse ameaça o destino das cerca de 150 famílias que compõem a ocupação. Além das famílias brasileiras, também há refugiados do Congo, da Colômbia e da Palestina.

Cena do longa-metragem com Carmen Silva, Guylain Mukendi e José DumontUm dos migrantes demonstra sua preocupação com a ordem judicial ao afirmar que pessoas em situação de refúgio não poderiam estar alinhadas a movimentos políticos. A discussão culmina com um dos moradores da ocupação questionando por que haveria a obrigação de acolher pessoas refugiadas, se não há espaço nem políticas para as brasileiras. Tal questionamento é rebatido por um dos refugiados, que demonstra a ausência de acolhimento e políticas de integração.

“Somos todos refugiados, refugiados pela falta dos nossos direitos”

Carmen da Silva Ferreira, líder da Frente de Luta por Moradia (FLM)

A partir daí, o espectador passa a acompanhar a rotina de cada um dos personagens que integram a ocupação, em especial, os refugiados. Com introduções poéticas e um roteiro repleto de relatos, o longa-metragem apresenta o refúgio sob sua faceta mais cruel: o exílio e a retirada de direitos.

“Eu queria agradecer a vocês. A minha vida toda, vivi num país ocupado.

Pela primeira vez, eu me sinto ocupando alguma coisa.”

Isam Ahmad Issa, refugiado da Palestina

Com a participação dos atores José Dumont, Suely Franco e Thaíssa Carvalho e dos moradores e moradoras da ocupação, integrantes de movimentos de luta por moradia, o longa-metragem foi construído por meio de relatos das famílias e contou com o apoio de estudantes de arquitetura da Escola da Cidade na estruturação dos cenários.

Eliane Caffé relata que imergir naquele espaço suscetível a conflitos foi um desafio. “A ficção começou a ter respaldo da realidade de tal forma que, de repente, grande número de refugiados estava de fato entrando nas ocupações espalhadas pelo centro de São Paulo. E, então, fortaleceu-se a ideia de filmarmos, imergindo no cotidiano real de um edifício ocupado”, afirma a diretora.

Era o Hotel Cambridge retrata um cenário que, cada vez mais, tem se tornado evidente na cidade de São Paulo e mostra a necessidade de políticas que não apenas cedam o espaço para o refúgio, mas também integrem as pessoas em toda a gama de direitos e serviços que compõem tal espaço.

O ITTC, em seus 20 anos de existência, luta para a efetivação dos direitos humanos, com especial atenção aos direitos das pessoas migrantes. Através da atuação com o Projeto Estrangeiras, o Instituto nota as carências e as vulnerabilidades que atingem essas pessoas e acredita que são necessários a exposição e o diálogo sobre esse tema.