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ITTC Recomenda: Baseado em Fatos Raciais

abr 25, 2019 ittc

Imagem: divulgação Netflix

“A história da cannabis nos EUA está ligada à história da música nos EUA” – esta é a premissa do documentário Baseado em Fatos Raciais, que estreou no último dia 20 de abril na Netflix. O filme é dirigido e narrado por Fab Five Freddy, um dos precursores do hip-hop nos Estados Unidos, e conta com a participação de outros artistas de referência do meio musical, como o rapper Snoop Dogg. Mesclando depoimentos originais, dados históricos e materiais audiovisuais diversos – sempre acompanhados de uma boa música -, Fab Five guia o espectador em uma análise que começa com o surgimento do jazz, no início do século XX, e segue até a popularização do rap nas últimas duas décadas.

O jazz surgiu como um dos desdobramentos da música negra nos EUA, tendo como destaque a cidade de Nova Orleans. As letras frequentemente faziam alusão à maconha e seu uso recreativo, inclusive cunhando algumas das gírias em voga até hoje para se referir a um “baseado”. Louis Armstrong, um dos principais nomes do jazz, tinha o hábito declarado de fumar maconha e posicionava-se contra a criminalização da cannabis.

Autoridades e mídia iniciaram, então, uma estratégia para vincular o uso da maconha com episódios de violência e loucura amplamente noticiados. A droga também era considerada uma arma dos homens negros para seduzir mulheres brancas – argumento que, em uma sociedade marcada por racismo e segregação, tinha um apelo enorme.

Fab Five Freddy explica que a guerra às drogas teve como marco inicial a posse de Harry Anslinger no Departamento de Narcóticos dos EUA em 1930 (história narrada em detalhes no livro Na fissura, de Johann Hari, lançado em 2018 no Brasil pela Companhia das Letras). A partir desse momento, a perseguição a artistas de jazz se intensificou. Nos anos seguintes, foram impostas legislações que proibiram o uso de maconha e outras substâncias. A proibição, entretanto, era uma arma política de perseguição a opositores; mesmo com novas descobertas científicas que desmistificavam a cannabis, o governo americano insistia em demonizá-la.

O documentário explana que a cultura hippie, notavelmente branca, se apropriou da maconha como parte do movimento nos anos 70, e foi o uso por essa camada racial que permitiu a abertura de um debate sobre legalização. Freddy defende que essa lógica se mantém quando se pensa na abordagem utilizada no tratamento de pessoas usuárias de diferentes tipos de droga: a cocaína, “droga de pessoas ricas”, é assunto médico; a maconha, “droga de pessoas negras e latinas”, é questão de segurança pública.

Na “terra das pessoas livres e lar dos destemidos”, pessoas negras são, historicamente, uma minoria política, que sofre com os mecanismos punitivos da legislação de cada época pelas quais passa. Associá-la ao uso e comércio de determinadas drogas é a abordagem mais contemporânea e sofisticada para excluir e/ou eliminar essa população. Este é o pensamento que permeia todo o documentário, em especial quando são feitas críticas ao encarceramento em massa dos EUA, que lucra com a prisão dessas pessoas.

No Brasil, crimes relacionados a drogas são também os que mais prendem, principalmente pessoas negras. Embora as políticas relacionadas à maconha estejam mudando e o uso da substância esteja sendo cada vez mais discutido, o documentário lembra que o passado não pode ser esquecido.

O Projeto Gênero e Drogas, do ITTC, lançou em 2016 o infográfico interativo “Política de Drogas e Encarceramento”. Nele, são mapeados todos os países da Europa e das Américas que flexibilizaram de alguma forma suas políticas de drogas. O material traz que, dos 36 países analisados, 22 apresentaram um aumento do encarceramento após a adoção de tais políticas. Isso aconteceu porque a maioria deles passou a ser tolerante a apenas um tipo de droga, ou apenas ao uso, por exemplo, aumentando a criminalização do comércio de drogas. Como diz um dos entrevistados no documentário: “Não dá para estragar a vida de gerações e agora decidir que vamos lucrar em cima disso. Para regulamentar precisa ter reparação”.